“Você sabe quem eu sou?”
“Neste momento, só me interessa saber quem é a sua filha.”
Derek bateu a porta do carro e ficou ao lado da mãe. Seu relógio caro refletia a luz do farol.
“Temos uma reunião marcada para tratar de uma tarefa”, disse ele. “Você não pode nos tratar assim.”
“Com quem você vai se encontrar?”, perguntou Hale.
Derek hesitou.
“Com a pessoa responsável por aprovar o contrato.”
“Comigo”, respondi.
Pela primeira vez, vi sua confiança ruir.
A sala de reuniões, para onde fomos conduzidos às oito e quarenta da manhã, cheirava a café e produto de limpeza. Um mapa do litoral estava pendurado na parede, e abaixo dele, um relógio, cujo ponteiro dos segundos saltava com uma precisão irritante.
Minha mãe sentou-se sem questionar.
“Evelyn, não faça escândalo na frente de estranhos.”
“Foi você quem fez escândalo no portão.”
“Eu só queria ajudar seu irmão.”
“Entrando em uma base fechada sem a devida autorização?”
Derek inclinou-se sobre a mesa.
“Não é nada demais. Preciso que você assine alguns documentos. Seu nome facilitará o processo.”
“Que documentos?”
“Documentos comuns.”
“Se são comuns, por que você não os enviou pelo correio?”
Seus dedos se fecharam em punhos cerrados.
Elas brilhavam na beira da mesa.
Então minha mãe bateu com a mão no tampo da mesa.
“Você foi difícil a vida toda. Primeiro aquele uniforme, depois as viagens, as promoções, os segredos. Pelo menos Derek se manteve perto da família.”
Lembrei-me do meu pai. Depois da morte dele, fui eu quem corrigiu a conta da funerária enquanto Derek escolhia a música para o velório. Fui eu quem encontrou o lugar certo no cemitério. Fui eu quem escreveu os sessenta e um cartões de agradecimento, e minha mãe os jogou no lixo porque precisava de um lugar para os troféus.
Por anos, achei que o silêncio era o preço da paz.
Eu estava enganada.
O arquivista entrou na sala com um envelope fino na mão. Era um homem mais velho, de óculos de prata e mangas encharcadas de chuva.
“Almirante, encontramos uma cópia nos arquivos da academia”, disse ele.
Minha mãe ergueu a cabeça bruscamente.
“Que cópia?” O arquivista olhou para mim.
“A carta de aceitação de trinta anos atrás. E a carta que chegou depois em nome do candidato.”
Derek franziu a testa.
“Não tem nada a ver com o meu contrato.”
“Tem sim”, respondi. “Porque foi essa a história que deu início a tudo.”
Minha mãe se levantou tão abruptamente que a cadeira rangeu.
“Não abra.”
Todos ficaram em silêncio.
O arquivista colocou o envelope sobre a mesa.
“Há mais um detalhe. A assinatura na carta de rejeição foi questionada.”
Olhei para minha mãe.
“Você quer dizer a eles quem assinou?”
Seus lábios se entreabriram, mas nenhum som saiu.
Naquele momento, o telefone do comandante vibrou. Hale atendeu, ouviu por alguns segundos e então olhou para mim com uma expressão que eu nunca tinha visto em seu rosto antes.
“Almirante”, disse ele em voz baixa. “O Ministério Público Militar acaba de confirmar que alguém usou suas informações para se candidatar a este contrato.” Derek se afastou da mesa.
Minha mãe sussurrou:“Isso é impossível.”
Hale apertou o botão do viva-voz.
Uma voz feminina soou do outro lado da linha:
“Temos uma gravação de uma conversa na qual a pessoa que se passa por Evelyn Ross admite que…”
PARTE 3
“Temos uma gravação de uma conversa na qual a pessoa que se passa por Evelyn Ross admite que interceptou os documentos da candidata e bloqueou deliberadamente sua viagem”, concluiu a mulher ao telefone.
A sala de reuniões ficou tão silenciosa que eu conseguia ouvir o tique-taque do relógio na parede.
Minha mãe sentou-se lentamente.
“É falso”, disse ela.
“A voz foi verificada por especialistas”, respondeu o promotor. “Por favor, abra o envelope.”
O arquivista deslizou-o em minha direção. O papel estava amarelado nas bordas e o lacre de cera trazia o símbolo de uma âncora. Toquei-o com o polegar por um instante, sentindo a textura irregular da cera seca sob a minha pele.
Então abri o envelope.
Dentro estava a carta original de aceitação da Academia Naval. Meu nome. Meu número de candidato. Minha data de início. A bolsa de estudos. A assinatura do comandante.
Eu fui aceito.
Não fui rejeitado.
Não me faltavam notas, dinheiro ou coragem.
Minha mãe escondeu a carta e enviou uma carta para a academia, supostamente pedindo demissão. Ela falsificou minha assinatura. Depois, me disse que o comitê me considerou muito mediano para servir na Marinha.
Lembro-me de estar sentado nos degraus, de mãos vazias, enquanto Derek assistia à TV na sala de estar.
“Você não tem o temperamento para isso”, disse ela. “Fique em casa. Alguém precisa ajudar a família.”
“E se eu quiser tentar?”
“Você não é como seu irmão.”
Essa frase doeu mais do que a própria falsa recusa.
A gravação começou a tocar.
A voz da minha mãe saiu do alto-falante, mais velha, mas reconhecível.
“Se Evelyn for embora, quem vai cuidar da casa? Derek não pode ficar sozinho. Ela sempre foi sensata. Diga a ela que não a aceitaram.”
Minha mãe cobriu o rosto com as mãos.
Derek olhou fixamente para a mesa.
“Mãe”, disse ele. “Diga que não é verdade.”
“Eu fiz isso pela família.”
“Por mim?”, perguntou ele.
Ela não respondeu.
Ele olhou para mim.
“Você sabia?”
“Desde esta manhã. Ontem, o arquivo me enviou uma cópia e a gravação.”
“E mesmo assim você veio conosco?”
“Eu queria saber se você ainda me chamaria de escriturário quando me pedisse para assinar.”
Derek se levantou da cadeira num pulo.
“É só um contrato.” Eu não sabia de nenhuma carta.